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Corações Sujos

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Trilha sonora já tem dono: Akihiko Matsumoto

Fechamos a música do Corações Sujos. Ela será composta por Akihiko Matsumoto, famoso "trilheiro" japonês - duas vezes indicado para o prêmio da Academia Japonesa de Cinema.

O japonês Akihiko Matsumoto vai compôr a trilha sonora de Corações Sujos

Além de ser um músico com uma veia poética muito apurada ele tem também muita experiência em thillers e filmes de ação. Como CORAÇÕES SUJOS combina história de amor e thriller ele é o músico ideal para o projeto.

Música em cinema é algo muito importante. É um terceiro elemento na composição da trajetória emocional do filme. Ela tem importância complementar à atuação e à fotografia. Os atores e a fotografia são uma interpretação artística do que está no roteiro, da história que está sendo contada - não são, objetivamente, a história em si (esta só existe no papel). A música (e o sound design) entra como um terceiro elemento: um elemento que não pode ser apenas objetivo, não pode apenas sublinhar a emoção dos personagens ou a beleza das imagens. A música deve nos ajudar, como público, a percorrer sentimentos que vão além do que está na tela e a transformar o filme num espetáculo transcendental - por mais simples que seja a história, ou não.

Eu acredito que Akihiko Matsumoto é a pessoa correta para nos ajudar a alcançar esta transcendência. Ele é apaixonado pela história, pelos personagens, pelo filme. Sabe que não queremos um pastiche de música tradicional japonesa, sabe também que elementos japoneses não podem estar ausentes, mas que o filme se passa no Brasil. CORAÇÕES SUJOS não é um filme sobre imigração, mas, sim, passado entre imigrantes - é, como sempre repito, um thriller e uma história de amor. Um filme sobre verdade, fundamentalismo, amor e dor. Ele é a pessoa certa para traduzir isto em música.

Vicente Amorim
Diretor 

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Corações Sujos

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Cinema é tudo

Acabaram as filmagens do Corações Sujos. Além das saudades do set, de uma certa "depressão pós-parto" e de outros sentimentos nostálgicos há também um lado de mim que se sente aliviado. Não por não estar mais filmando - é pra isso que vivemos -, mas por saber que a fase mais difícil de um projeto que já tenho há tantos anos se cumpriu. Foram, como já foi publicado pelo Mussoi, 925 set-ups em 34 dias de filmagem (mais de 27 por dia!), cinco bases de locação diferentes, uns 18 dias de noturnas e uma babel incrivelmente feliz. Devo muito ao Caíque e ao Karam (e à galera deles), que montaram a fundação que tornou isto tudo possível.

Estou há três dias de volta no Rio, no escritório, cumprindo o batente de produtor deste filme e de mais uns quatro que temos em produção aqui na Mixer.  Meu lado diretor tem que ficar com a ansiedade controlada enquanto a Diana Vasconcellos, montadora, prepara uma primeira estrutura em cima da qual vamos trabalhar. A filmagem é o cerne de duas pontas fundamentais de um filme: o roteiro e a montagem. Estou louco para mergulhar na última etapa, mas preciso dar um tempinho pra Diana. Enquanto isso, levanto o que falta para o Corações Sujos, para meu próximo filme e para os próximos de Michel, Pedro e João.

Já ouvi dizer que o filme é a filmagem, mas o cinema é a montagem. Bobagem. Cinema é tudo.

Vicente Amorim
Diretor

 

 

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Corações Sujos

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Começo do segundo tempo

Ontem começamos a segunda metade da fase de filmagens de Corações Sujos. Além das inevitáveis platitudes sobre "como passaram-se rápido estas três semanas", "que bacana que foi até aqui" etc,  o que marca este momento é que ele coincide com a despedida da principal locação do filme: a fazenda Santa Maria, onde ficam a rua dos personagens Takahashi e Sasaki, a estação de trem, a casa do personagem Aoki, o cemitério, o interior da delegacia e outros cenários importantes.

Não foi fácil achar o lugar ideal para recriar estes cenários todos. Algumas cidades barrocas ou coloniais foram preservadas no Brasil. Mas do interior de São Paulo dos anos 40 nada sobreviveu ao progresso. Depois de alguns meses de busca achamos, eu e o diretor de arte Daniel Flaksman, com a ajuda do pessoal da Film Commission de Paulínia, esta fazenda.


Uma rua do interior de SP em 1946 e a rua de Takahashi no set da Santa Maria: fazenda
foi âncora para a recriação visual de uma colônia japonesa no pós-guerra

Cerca de 80% do que será visto no filme foi construído do zero.  Mas a Fazenda Santa Maria foi a âncora para que pudéssemos recriar a "nossa" cidade - baseada no que eram as cidades paulistas de Tupã, Bastos ou Oswaldo Cruz em 1946, como mostram as fotos acima.

Hoje nos despediremos da Fazenda Santa Maria. Vamos sentir saudades.

Vicente Amorim
Diretor


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Corações Sujos

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Do livro ao filme

Ou "Como transformar a busca por um drama pessoal hermético num thriller"

Corações Sujos vai ser meu quarto longa. Mas o processo para que ele existisse começou quando eu lançava meu segundo, O Caminho das Nuvens.  Eu procurava um filme que fosse um tanto quanto diferente do que eu estava prestes a lançar (tudo bem, “estamos todos sempre fazendo o mesmo filme”, blablaba, mas eu queria tentar!).  Queria algo que refletisse minha experiência pessoal ao longo dos anos: o sentimento de ser estrangeiro tanto no exterior quanto, até certo ponto, no próprio Brasil.  Algo que fizesse pensar sobre a necessidade de adequação e pertencimento que todos sentimos ao longo da vida, estrangeiros ou não. 

Mas eu não estava encontrando este filme.  Eu achava que seria um filme pequeno (em escala de produção) vagamente inspirado em experiências e lembranças pessoais “reais”.  Enquanto eu acalentava este devaneio proustiano o livro do Fernando Morais atravessou meu caminho.  Fiquei olhando para ele na estante por semanas, sem coragem de ler.  Pedi que a Anne Pinheiro Guimarães, minha mulher e também cineasta, o lesse.  “Dá filme?”, perguntei. “Vários, e todos ótimos!”, foi sua resposta. Li correndo.  Como todos os livros do Fernando, este também te envolve de uma forma magnética – a realidade pode ser tão “stranger than fiction”!

Acabei encontrando no livro Corações Sujos, de Fernando Morais, a resposta que eu procuarava.  Melhor que isso: achei um filme que respondia ao meu desejo de refletir sobre nacionalidade, pertencimento e adequação e que, ao mesmo tempo, poderia ser um mergulho num universo muito mais amplo.  Sempre fui fascinado pela cultura japonesa, mas não me via fazendo um filme com este contexto até ler o livro.  Agora tinha um projeto que, além do que eu buscava, era também um thriller e uma história de amor.

Mas isto foi há sete anos atrás... [continua no próximo post...]

Vicente Amorim
Diretor

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Corações Sujos

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Improviso para um quase diário cada vez mais quase e menos diário

Talvez eu seja mais metódico (neurótico) do que a maioria dos diretores (mas tenho certeza que sou menos do que um ou dois que conheço bem). Embora eu adore a sensação do improviso, na verdade, na criação artística não acredito nela.  Muito menos no cinema.  Quanto mais eu filmo mais acho que realmente só é possível improvisar com muito, muito planejamento.  O improviso real na verdade não existe; é como intuição - é parte e fruto do seu preparo e experiência.  Claro que, especialmente filmando uma sequência complicada, você tem que estar aberto a boas surpresas que aparecem no momento.  Mas a verdade é que estas surpresas são fruto de escolhas que você fez muito tempo antes, escolhendo a equipe certa, os atores certos, as locações certas (ou assim sempre esperamos).

O eixo e a lógica

Hoje rodamos (entre muitas outras coisas) uma sequência que descrita de forma objetiva parece simples: pessoas de uma família sendo fotografada, o fotógrafo, sua esposa, uma menina que observa e uma mãe brava que vem buscá-la.

Mas destes nove (incluindo a família) personagens, quatro têm fala.  Estamos numa locação/cenário com duas portas entre o fotógrafo e os fotografados e a mãe entra por uma delas, relacionando-se com os personagens dos dois lados e depois cruzando o cenário de um lado ao outro, buscando a filha e voltando - no caminho de ida e volta ela olha e fala com personagens dos dois lados. Ou seja,  dependendo do momento, dois eixos de olhar diferentes para cada um dos personagens: há um eixo vertical e outro horizontal.  Claro que, se você seguir a cartilha, dá tudo certo.  O negócio é que a cartilha (que tem que ser seguida) é por definição anti-intuitiva para a maioria das pessoas.  Por que alguém que estava "obviamente" à frente de outro personagem tem de olhar para ele, primeiro à direita e, depois, para outra parte da cena, à esquerda? Eixo.

Quando acontecem estas situações alguém sempre fala (além da continuista, que tem esta obrigação):

- Mas não era pra olhar para o outro lado?  Pulou o eixo?

- Não, é o outro eixo.

- Que eixo? Para qual parte da cena?

- Mas não é a mesma cena? Por que tem que olhar para o outro lado se agora mesmo ela estava olhando para a esquerda?

Lembro de uma continuista americana que escrevia os nomes dos personagens ou numa mão ou na outra para não se perder. E este post está parecendo aqueles problemas de matemática que a gente detesta no primário:  Maria foi à feira comprar dez bananas, voltou para casa e no caminho passou no verdureiro onde ganhou uns limões, com quantas laranjas se faz um mate? Hmmm, onde é que eu estava mesmo?

Acho que está ficando tarde e eu estou começando a derivar.

O que importa mesmo é que ninguém achava que desse pra cumprir o plano hoje, mas deu!  E com louvor.  Mais um dia ótimo!

Vicente Amorim
Diretor

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Corações Sujos

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Apresentando nossos japoneses no set

Ontem inauguramos a filmagem com o personagem principal, Takahashi (vivido por Tsuyoshi Ihara, de Cartas de Iwo-Jima) e seu mentor, o Coronel Watanabe (Eiji Okuda).  No total teremos seis atores do Japão no elenco (e muitos japoneses que moram aqui e nisseis, é claro).

O  ator Eiji Okuda, já caracterizado como Coronel Watanabe, posa ao lado do  diretor Vicente Amorim, no primeiro dia de filmagens de Corações Sujos

Amanhã filmaremos com três do cinco que já chegaram.  Para eles será o primeiro dia.  Me pergunto se eles vivem a mesma ansiedade que nós vivemos, agora que o filme já começou...

Os que estreiam amanhã são Sasaki (o presidente da cooperativa agrícola, vivido por Shun Sugata, de Kill Bill e O Último Samurai), Naomi (sua esposa, vivida por Kimiko Yo, de A Partida) e Miyuki (a co-protagonista do filme, vivida por Takako Tokiwa, uma grande estrela do cinema e TV japonês).

Quem começa amanhã também é o Eduardo Moscovis, que vive o Sub-Delegado encarregado de investigar os crimes que acontecem na colônia.  Sempre gostei muito do trabalho dele, mas fiquei especialmente impressionado com a atuação dele no Cabeça a Prêmio, do Marco Rica.

Vicente Amorim
Diretor

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Corações Sujos

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Primeiro dia de filmagens

Aguenta, corações! (tudo bem, vou parar de fazer estes trocadilhos, prometo...)

Acordamos quatro da manhã no sábado e fomos para a locação mais distante de todas - o algodoal.  O processo de produção de um filme nos obriga (sempre) a filmar fora de ordem.  Como a locação de hoje pontua o filme, rodei cenas para o começo, meio e fim (ou quase) do filme.  Quem faz cinema e ler isto vai dizer:  pô, mas isto é normal!  Tudo bem, é.

Mas às vezes dá vontade de fazer como o Mike Leigh - rodar em ordem (ia ser o caos para a produção e meu lado produtor não me permitiria isto - mas que dá vontade, dá!).

Dito isto, foi um primeiro dia sensacional.  Tempo lindo, bom humor e cenas muito bacanas.  Eu não poderia estar mais contente.

Como este dia foi "pescado" do meio do plano de filmagem (se não rodássemos hoje o algodão seria colhido) a produção teve que antecipar em um dia o início das filmagens.  Ou seja:  filmamos no sábado, domingo é folga e segunda retomamos.

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Corações Sujos

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Expectativa em Paulínia: Menos de um dia para o início das filmagens...

Todo diretor, quando o filme fica pronto, no momento da pré-estreia, faz aquele discurso do "sem esta equipe maravilhosa não teria sido possível..."  Pois bem:  eu quero fazer este discuros ANTES.  E não é proselitismo.  Este é meu quarto longa como diretor, mas o meu vigésimo sexto, na vida.  Nunca vi um clima tão bacana, uma equipe tão enturmada, tão parceira quanto a que temos em Corações Sujos.

Vicente Amorim

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Corações Sujos

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Introdução: Bem-vindos ao coração do filme

Agosto de 1945. O Japão rendeu-se aos Estados Unidos e a Segunda Guerra Mundial terminou. Certo? Errado. No Brasil do pós-guerra, 80% da colônia de imigrantes japoneses insistia em não acreditar na derrota. E não era apenas porque o Japão em quase três mil anos nunca havia perdido uma guerra. Isolados e reprimidos pelo governo brasileiro, sem acesso a jornais ou rádio, proibidos de se reunir, a imensa maioria dos imigrantes estava distante de informações confiáveis sobre a rendição. Por isso, a ideia de que a derrota seria pura propaganda, provocação dos americanos, reforçava-se na mente dos mais engajados.

Os imigrantes japoneses que aceitaram a derrota foram perseguidos. Muitos foram assassinados.  Começava uma nova guerra, mas esta dentro da colônia japonesa no Brasil.  A polícia, responsável pela repressão à maior parte dos imigrantes, pouco pôde ou quis fazer para evitá-la.

Corações Sujos - que começaremos a filmar no próximo dia 10 de abril, na cidade de Paulínia – é um thriller que se passa em meio a esse inusitado e violento conflito.

Baseado no best-seller de Fernando Morais, com Eduardo Moscovis e um elenco de estrelas de filmes como Cartas de Iwo-Jima, O Último Samurai, A Partida e Kill Bill, o filme é narrado pela mulher de um dos imigrantes dedicados a pregar a vitória japonesa. Em meio ao caos e à violência, ela vê seu marido, até então um pacato imigrante, transformar-se num assassino. E a história de amor deles se perder.

Mas será que esta história de amor se perde de fato? Será que o Japão realmente perdeu a guerra?

Os temas que balizam este filme extrapolam história, ação e romance. Corações Sujos refletirá sobre intolerância, fundamentalismo, racismo, manipulação da verdade. E mostrará que, talvez, esta história não tenha acabado.

Este blog que acaba de entrar no ar vai documentar, em todos os detalhes, o processo de produção de Corações Sujos. Não só aqui, mas nas redes sociais mais importantes (Facebook, Twitter, You Tube e Orkut, que podem ser acessados clicando-se nos links à direita), você poderá seguir todos os passos da filmagem, acompanhar os detalhes da pós-produção, ver vídeos do set, conhecer os personagens, os atores e integrantes da equipe técnica. Minhas impressões pessoais sobre as filmagens e todo o processo criativo que orienta nosso trabalho também estarão aqui, em textos periódicos.

Um abraço.

Vicente Amorim
Diretor

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