Onde você estava no dia 11 de março de 2011? Talvez você não lembre, mas todos os japoneses - e os estrangeiros que visitavam o país naquele dia fatídico - sabem exatamente o que faziam no momento em que o arquipélago sofreu a mais terrível sequência de terremotos seguidos de tsunamis de que se tem registro. Entre os milhões de pessoas que tiveram as vidas alteradas pelos acontecimentos (milhares, de forma trágica), estava o diretor de Corações Sujos, Vicente Amorim. Por conta dos terremotos, sua viagem a Tóquio para apresentar o filme a distribuidores asiáticos tranformou-se também numa experiência impossível de esquecer. Que ele relata no texto e nas imagens abaixo:
UM CAOS CALMO
Por Vicente Amorim, de Tóquio
O lustre está balançando...
Quarta-feira, dia 9 de março, 11:30 da manhã (no Japão). Quarto de hotel em Tóquio. Estou no skype com minha mulher, que está no Rio, e, de repente, me vem uma sensação de tonteira ou enjôo. Deve ser a mistura de aguardente de arroz com grapefruit que tomei de madrugada, em jejum, achando que fosse um suquinho (os únicos caracteres romanos na lata diziam “grapefruit”). Comento a tonteira. A Anne, minha mulher, na telinha do computador: “o lustre do seu quarto está balançando”. Era meu primeiro terremoto. Um leve, destes que nem são contabilizados e que os japoneses ignoram solenemente.
Tratei de tentar ser cool e ignorar também. Até porque, quando, na recepção do hotel, perguntei sobre este pequeno sismo, a única reação foi um sorriso condescendente.
Fui ao Japão com a missão de mostrar meu filme, Corações Sujos, para distribuidores locais. O filme, um projeto que tenho há quase sete anos, conta a história real de como oitenta por cento da colônia japonesa no Brasil, logo depois da Segunda Guerra, reprimida e segregada pelo Estado, não aceitava a derrota para os americanos. Os que acreditavam na derrota eram perseguidos – eram os “corações sujos”. O filme é falado quase todo em japonês e seu elenco é formado por estrelas nipônicas – atores que fizeram filmes como Cartas de Iwo-Jima, A Partida, Kill Bill... Coisa de maluco. Um thriller, uma história de amor, passada no Brasil de 1946 e falado em japonês! Eu, claro, tinha que ir a Tóquio. Os distribuidores de lá queriam muito ver o filme.
Figurante de Blade Runner
A chegada a Tóquio, pra quem nunca esteve lá, é experiência comparável à primeira visita de uma criança a uma loja de brinquedos. Ou a uma viagem de ácido. Ou as duas combinadas.
Tudo exatamente como você espera e, ao mesmo tempo, completamente novo, diferente. Os muitos anos de preparação e pesquisa para o filme me ajudaram a compreender a cultura japonesa, mas passaram longe de me ensinar a ser um figurante de Blade Runner.
Em Tóquio somos todos figurantes de Blade Runner. E, se você não fala e lê japonês, você (como eu) é um figurante analfabeto.
A sensação lisérgica começa, na chegada, com as doze horas de fuso. A luta para não dormir no primeiro dia, para entrar “em sinc” é enorme e faz tudo parecer mais estranho e mais belo.
Luzes. Muitas luzes. As pessoas elegantes, magras, quase todas de preto contrastam com as hordas de jovens coloridos, as meninas vestidas de colegiais cyberpunks.
Vou a Kamakura, antiga capital. Templos, um Buda gigante, uma cidade pequena - um Japão mais próximo da minha pesquisa. Quase sinto-me em casa.
Na volta a Tóquio, começam as projeções do filme. O primeiro choque cultural é se dar conta que, eticamente, os distribuidores não podem elogiar o filme assim que acaba a sessão. Seria o mesmo que se comprometer com a compra. Dá uma depressão... Brinco com meu produtor local: “prefiro os distribuidores americanos – eles não compram o filme, mas te cobrem de elogios”. Nos dias seguintes a rotina se repete, mas, para meu alívio, começam os telefonemas dos distribuidores: eles querem o filme e na próxima semana começaremos a negociar valores.
É curioso: eles só podem te elogiar “pelas costas”...
Mais animado, aproveito as manhãs livres pra dar uma de turista. Depois de quatro ou cinco dias e de um terremoto levinho me sinto mais à vontade na cidade. Impressiona-me, como seria de se esperar, a limpeza, a organização e o metrô abarrotado, porém pontual.
A única ilha de aparente bagunça em Tóquio é o mercado Tsukiji – onde se negociam os peixes (todo tipo de peixe, não só atum) que estarão na mesa da maioria dos restaurantes japoneses pelo mundo. Ali sim, eu estava em casa: lixo pelo chão, pessoas fumando pelos corredores, carros andando sem direção aparente, muita gritaria. Quase o Rio de Janeiro.
Meus anfitriões, os atores do filme e dois dos produtores, Yutaka Tachibana e Toru Iwasaki, são de uma gentileza extrema.
Aliás, todos por lá são. Ao contrário dos parisienses ou novaiorquinos, que pouco se importam, os Japoneses têm uma preocupação enorme em se certificar de que você esteja bem, que esteja gostando e este esforço é visível mesmo entre aqueles que não têm relação com a razão da sua visita.
Um jantar formal num restaurante onde só se entra “by appointment”, organizado por Toru-san, promete ser uma obrigação enfadonha e se revela um prazer e uma surpresa. Entre autoridades japonesas e brasileiras, convocados a fazer networking, e a obrigação de estar acordado e ser agradável, começa um banquete servido por... gueixas.
O monstro japonês
Sexta-feira, dia 11, véspera, teórica, da minha partida. Passo a manhã em Akihabara, a “cidade elétrica” – o bairro que é a Meca dos eletrônicos. Acabo comprando quase nada – uma bateria extra para o iphone, e dois bonequinhos para meu filho: um Ultraman e um dos seus inimigos – um monstro japonês. (Vale dizer que ele não deu a menor bola para os bonecos, que serão devidamente confiscados por mim – Ultraman é parte do meu inconsciente!).
Almocei e peguei o metrô para Shibuya, bairro hipermoderno onde fica a sala de projeção. Seria a última projeção do filme e para dois dos distribuidores mais importantes do Japão. Resolvi que deveria chegar cedo para me certificar que tudo estava em ordem.
14:40 saí da estação de Shibuya e resolvi tirar uma foto da estátua do cachorro Hachiko (aquele que ficou esperando o dono mesmo depois da morte deste). Caramba, não estou conseguindo enquadrar direito. Não, não é isso. É mais um terremoto.
Resolvo ser cool: eles não ligam, também não vou ligar. Mas o terremoto não passa. Dura dois minutos e meio, ou mais – uma eternidade, nesta situação. O cruzamento de Shibuya, com seus telões, música, vendedores e milhares de pedestres vindo de pelo menos seis direções diferentes para. Foi a primeira vez que vi este cruzamento, onde eu passava todo dia, parado. Todos – japoneses, turistas, executivos, paralisados olhando para cima: para um prédio de uns trinta andares, ainda em construção, com dois guindastes no topo, que balançava como uma vara de bambu. Não tive como não pensar em Godzilla. Japonês, no meio da rua, parado, apavorado, olhando pra cima é cena de Godzilla. Saquei minha câmera e comecei a filmar e fotografar. Aprendi no parto dos meus dois filhos que o mundo visto através das lentes é mais fácil. Cria-se um distanciamento.
Sirenes tocavam. Avisos em japonês e em inglês para que todos permanecessem parados e não usassem seus celulares. O povo japonês, tão disciplinado, não acatou a última ordem. Todos sacaram seus celulares e começaram a ligar para, presumo, suas famílias. Este terremoto era diferente. Muito mais forte. O chão parecia ser feito de gelatina. Não é como nos filmes, onde as coisas tremem. A sensação é de estar numa balsa no meio de uma tempestade, jogando de um lado para o outro.
Parou o terremoto. Aos poucos a multidão paralisada começou a se mover. Cada qual para seu destino. Parecia que a normalidade havia voltado.
Seja cool como eles, Vicente, eu pensava. Seja cool. Seja cool. Seja cool. Fácil falar... Andei até a sala de projeção, numa escola de cinema há uns dez minutos do cruzamento. Muita, muita gente na rua. As lojas baixando as portas.
Quando cheguei no cinema, os meus produtores-associados, Yutaka-san e Toru-san, estavam calmos. Vamos atrasar a sessão meia-hora, este terremoto vai fazer com que as pessoas demorem um pouco para chegar. OK, no problem.
Mais um tremor. Um aftershock, ou, como se diz em português, uma réplica (palavra muito menos adequada). Mas uma réplica forte. Os postes balançam, a fiação idem. Um grupo de crianças passa gritando. E outra réplica. E mais outra.
Vamos cancelar a sessão, diz Yutaka, enquanto tenta ligar para a família, em Yokohama.
A telefonia do Japão inteiro entra em colapso, mas a rede de dados funciona. Tenho, portanto, o bom-senso de mandar um email para a minha família no Brasil, onde ainda é de madrugada. Nervoso, sou telegráfico: “Houve forte terremoto. Estou bem, não se preocupem.”
Ao mesmo tempo em que os carros somem das ruas de Shibuya, começam a formarem-se enormes engarrafamentos. O metrô e os ônibus param. Tive muita sorte de sair do meu trem dois minutos ou três antes do terremoto. Quem estava num vagão na hora do sismo lá ficou durante três horas, até que fosse decidido que sairiam andando pelos trilhos.
Frio. Ainda por cima começa a fazer um frio dos diabos. A temperatura vai se aproximando de zero junto com a noite.
Eu teria um jantar de despedida com meu elenco nesta noite. Resolvo esperar no cinema até duas horas antes do marcado e saio a pé, na direção do restaurante. Hordas de pessoas andando pelo meio da rua. É a primeira vez que vejo os japoneses andando na rua e não na calçada.
As pessoas fazem filas enormes para tentar falar nos telefones públicos, mas a maioria deles está muda também. A grande preocupação de todos é ter notícias das suas famílias, mas quase ninguém consegue.
Cenário de filme-catástrofe. Muitos já desistiram de voltar pra casa e se encolhem debaixo das marquises das estações de metrô fechadas. Continuo andando. Os engarrafamentos nas grandes artérias da cidade aumentam. A noite está muito fria.
Mas as pessoas estão, estranhamente, calmas. Param em frente a lojas para ver reportagens sobre o terremoto. A esta altura os canais de TV já começam a transmitir imagens do tsunami que se seguiu ao grande tremor.
A terra não para de tremer. As réplicas são constantes e algumas são fortes. Mesmo pessoas mais velhas nunca viram nada parecido. Não dá mais pra ser cool.
Chego no restaurante, lotado – muita gente para onde pode para comer ou se aquecer, já que chegar em casa é impossível.
Janto com meus produtores. Claro que o elenco não aparece. Nem esperávamos mais que aparecessem. As imagens do tsunami na tela da TV do restaurante. Todos no restaurante consternados, chocados, mudos.
Consigo, horas depois, chegar ao hotel. Um prédio moderno em Akasaka. Na recepção um aviso: não temos vagas. Muita gente tenta se hospedar nos hotéis, já que chegar até suas casas é impossível.
Meu quarto é no nono andar. Consigo subir até o quarto. Estou exausto. Já é quase meia-noite. Vou tentar dormir. Não rola. O prédio, justamente por ser moderno, balança muito a cada tremor. Sinto-me num navio. Mas no nono andar de um navio. Definitivamente não dá pra ser cool.
No quarto (um cubículo japonês – sim exatamente como você está imaginando) tento relaxar mas é impossível. Cacete. Vou morrer. Mas não vou morrer de cueca e camiseta. Faço a barba e boto a roupa: quero que me achem com dignidade. Rio, nervoso, do ridículo dos meus pensamentos.
A possibilidade de um acidente atômico começa a ser levantada.
Meltdown é uma palavra, também, tão melhor (e mais assustadora) que derretimento!
De manhã cedo (dia 12) descubro que meu vôo foi cancelado.
Toru-san, que é japonês, mas mora em Campinas, vai para o aeroporto apesar do caos. Demora oito horas para chegar em Narita.
Eu nem tento ir para o aeroporto.
No dia seguinte consigo chegar em Narita, faço o check-in e passo pelo controle de passaportes. Pronto. Quase. Um tremor sacode o aeroporto. Era só o que faltava. Mas o vôo sai no horário.
Vinte e quatro horas depois, chego ao Brasil.
Meu pensamento continua, no entanto, em Tóquio. Com meus atores e equipe. Com vários deles não consigo falar desde que cheguei de volta. Sei que alguns foram para Osaka, outros para Kyoto, alguns para fora do Japão.
Impressionou-me ver como os japoneses, mesmo em meio à tragédia, continuavam organizados e serenos. Jamais esquecerei o caos calmo que vivi nestas quarenta e oito horas de tremores em Tóquio.
Mas quero voltar a Tóquio. Logo.







